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Ensino remoto flexibiliza horários de aulas e facilita conciliação de vida acadêmica e trabalho

Por: Anthony Teixeira, Caroline Ledesma, Eric Zanotelli, Guilherme Henriques e Rayssa Mambach

Em 2021, por conta da pandemia, para muitos estudantes, o ensino e o trabalho se resumem às telas dos celulares e computadores

O ensino remoto é, desde o início da pandemia, uma realidade nas universidades brasileiras. As aulas ocorrem ao vivo, mas os professores também disponibilizam conteúdo teórico e/ou prático assíncrono, o que flexibiliza a maneira com que o aluno irá acompanhar as aulas. Exatamente por conta disso, o ensino remoto pode ser considerado um facilitador para quem precisa trabalhar. Segundo dados mais recentes da Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação (Semesp), divulgados em 2020, 61,8% dos estudantes de faculdades privadas e 40,3% dos estudantes de universidades públicas trabalham.


Infográfico jornalístico intitulado "Perfil estudantes universitários 2020".
Infrográfico: Guilherme Henriques

Dentro desses números, a maioria dos trabalhadores possuem carteira assinada. Esse é o caso da estudante do 7° semestre de Biblioteconomia da Universidade de Brasília (UnB), Amanda de Oliveira. Ela precisa dividir o seu tempo entre a vida acadêmica e o trabalho, visto que, sem um emprego, ela não conseguiria se manter e nem contribuir na renda familiar. Amanda já trabalhava formalmente, antes do ensino remoto, em um regime de 44 horas semanais. Ela destaca que um trabalho formal exige muito tempo e disposição, o que torna esse processo exaustivo, restando pouco fôlego para os estudos. Contudo, enxerga na modalidade virtual

uma oportunidade. "Nessa questão do ensino remoto da faculdade, eu vi como uma grande oportunidade. Eu consegui encaixar alguns horários que, normalmente, eu não estaria conseguindo estar presencialmente na faculdade, mas eu consigo assistir uma aula, dependendo do meu trabalho. Na hora do meu intervalo, às vezes no caminho do trabalho, eu consigo assistir alguma aula". Ela também comenta que não é fácil, pois estar dentro de uma sala de aula, com um professor explicando presencialmente o conteúdo e todo o ambiente mais calmo seria o mais propício e mais adequado para o estudo. Entretanto, não sente que essa mudança, causada pela pandemia, acarretou em perdas, mas em ganhos. "No meu caso, ele (o ensino remoto) me trouxe benefícios", enfatiza.


Essa não é uma realidade isolada. A também brasiliense e graduanda de Biblioteconomia da

UnB, Jéssica Bilac Gaspareto, expõe um posicionamento bastante semelhante. Jéssica buscou um emprego por causa da questão financeira. Assim como Amanda, ela não vê a flexibilidade das aulas como um empecilho. Jéssica inclusive já trabalhou de forma remota antes do estágio atual e, portanto, estava familiarizada com a modalidade. "Eu já meio que tinha aprendido a lidar com essa dinâmica de casa, família, trabalho. É um pouco difícil, às vezes, por conta de muita gente chamando e às vezes aquilo te atrapalha a fazer (tarefas de ensino), mas eu acho que lido bem", comenta. "Então, para mim, não foi tão difícil a adaptação no remoto, por essa facilidade de já conseguir fazer as coisas só. E também já… é claro, né, eu tenho um equipamento para assistir aula, eu tenho uma internet boa, então, para mim, não foi difícil", explica a estudante.


Horários flexíveis, maiores responsabilidades

Motivados pela flexibilidade dos horários no ensino remoto, muitos estudantes assumem mais compromissos e investem em uma maior especialização. Essa modalidade de ensino, para alguns alunos, se torna uma facilitadora para quem já tem responsabilidades extras, como um emprego, ou para quem está buscando novas oportunidades.


Estudante do IFES Cristiane Demartini

A graduanda em Administração do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), Cristiane Demartini, faz parte do grupo de alunos que se sentiu beneficiado pela versatilidade dos horários do ensino remoto. “Eu já trabalhava no final de semana em uma lanchonete, só que era sábado e domingo à noite. Aí, com a flexibilização (de horários), eu pude trabalhar durante a semana, também, junto com o ensino à distância”. Cristiane explica que se sentiu motivada a se desvincular da lanchonete e procurar outro emprego, devido à flexibilidade do ensino remoto. “Atualmente, eu saí da lanchonete porque fui contratada (em outro local). Eu era estagiária na prefeitura da cidade de Vargem Alta e agora sou chefe de departamento”, comenta a estudante. Ela cumpre um regime de trabalho de 40 horas semanais. Além de trabalhar e já estar cursando uma faculdade, Cristiane decidiu ingressar em mais um curso superior para aproveitar o tempo que considera ocioso durante a pandemia. “Baseado em ter tempo, como eu estou fazendo o curso de Administração de forma temporariamente remota, eu resolvi entrar em uma outra graduação, no curso de Gestão Pública da UNOPAR, esse é totalmente EAD”, explica. Sendo essa nova graduação totalmente à distância, Cristiane tem expectativas de conseguir conciliar, mesmo após a volta das aulas presenciais do curso de Administração.


Estudante da Unipampa Tasciano Freitas

Outro aluno que atualmente divide o tempo entre o trabalho e as aulas remotas é o estudante do 4° semestre de Licenciatura em Física pela Universidade Federal do Pampa, Tasciano

Freitas, 24. Ele trabalha junto com o pai de forma autônoma, prestando serviços de instalação de alarmes, cercas elétricas, circuitos fechados de câmera e TV e, também, instalação e manutenção de computadores e redes de internet. O estudante sempre auxiliou o pai nos serviços quando estava em casa, durante as férias, mas, com a pandemia e as aulas online, ele, atualmente, se dedica aos estudos e auxilia no trabalho do pai. Tal situação só é possível por causa dos horários flexíveis que o ensino remoto proporciona. Tasciano revela que não está sendo tão complicado conciliar vida acadêmica, trabalho e convivência familiar quanto pensou que seria, mas confessa que é difícil se concentrar nos estudos. “Sempre que sento para estudar e fazer uma lista de exercícios, quando não é um irmão gritando e correndo pela casa, é alguém vindo conversar, ou, pior ainda, ficar conversando com outras pessoas do outro lado da parede”, comenta. Contudo, ele explica que, embora ainda haja certa dificuldade em focar nas aulas, entende que já se acostumou e que, inclusive, se sente menos descontente com as aulas remotas comparado ao início do ano letivo 2020/1. “A forma remota não é o sonho de nenhum aluno, mas como o momento não permite ser presencial, então temos que ver o lado bom”. O estudante busca ter uma rotina intercalada entre os estudos e trabalho, separando os dias de segunda, quarta e os sábados de manhã e à tarde para o trabalho, pois tem aula à noite, mas admite que nem sempre é possível seguir essa rotina. “Às vezes, preciso trabalhar no domingo também. Terça e quinta costumo ficar em casa, mas, às vezes, entre uma aula e outra, preciso sair”, conclui.


Evasão é significativa no ensino remoto

No entanto, mesmo que muitos estudantes vejam oportunidades e consigam conciliar diversas atividades neste período de pandemia e estudo remoto, uma grande parcela de universitários acabou ficando para trás por não ter as mesmas condições de se manter na faculdade durante a pandemia. Segundo dados de uma pesquisa da Semesp, mais de 600 mil alunos da rede privada de ensino superior trancaram ou desistiram do curso no primeiro semestre de 2020. Ainda não há dados sobre a evasão de forma geral no ensino público superior, desde que o ensino remoto foi implementado. Contudo, os dados disponibilizados pelo Campus de Bagé da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul, mostram que o índice de evasão, nessa instituição em particular, é bastante alto. No semestre 2020/01, por exemplo, entre os 15 cursos de graduação, dos 432 alunos, 169 deles abandonaram, se desligaram ou trancaram o curso. Para mais informações sobre evasão na Unipampa, acompanhe a reportagem "Prós e Contra da Graduação Longe de Casa", na editoria “Longe de casa”.


Estudantes da rede privada são os mais afetados

Diversos fatores podem ser responsáveis pelo alto número de evasão das universidades neste momento. O Prof. Dr. César Beras, cientista social afiliado à Universidade Federal do Pampa, campus São Borja, explica que os alunos de universidades privadas são os que mais trabalham durante a graduação, pois os cursos não têm cargas horárias de forma integral e porque há a necessidade de renda para pagar o curso. Esses estudantes acabam, por outro lado, sendo explorados no mercado de trabalho, por conta da necessidade de renda, e perdem o entusiasmo, ou não conseguem conciliar vida acadêmica e trabalho, o que justifica o alto índice de evasão dessas instituições.

Assista à fala do professor:


Questionado sobre os efeitos que o ensino remoto trará a longo prazo, Beras comenta sobre ser necessário saber diferenciar ensino remoto de ensino à distância.

Assista à fala do professor:


A saúde mental de quem trabalha e estuda em um cenário pandêmico

A pandemia afetou o psicológico da maioria das pessoas, sejam elas propensas ou não a terem instabilidades emocionais. Ocorreram mudanças no cotidiano, a partir do momento em que o isolamento se tornou necessário.

Psicóloga da UFERSA Ana Paula Medeiros

A psicóloga Ana Paula Santos de Medeiros, que trabalha atualmente na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), comenta que a incerteza sobre o futuro é uma grande aliada aos problemas psicológicos da classe estudantil universitária. “Não é somente o medo de morrer, de ser contaminado, de perder pessoas queridas, porque isso, inicialmente, é muito forte. E os alunos tiveram esse medo, e, depois desse, vem o medo de lidar com o descontrole e a incerteza com o futuro”, explica.


A profissional ainda ressalta que há alguns caminhos para aliviar as pressões que a pandemia trouxe aos estudantes que têm de dividir o tempo de estudo com o trabalho. Para Medeiros, não há uma regra geral, mas é necessário o diálogo para conseguir conciliar o tempo ao trabalho, ao estudo e à família. “Eu diria que o maior segredo de conviver com todos esses papéis é pensar um pouco que você está nesse ambiente que será de tudo um pouco. Então é preciso diálogo, diálogo com quem está junto de você, com a sua família, com quem mora com você”, complementa.


Muitos estudantes enfrentam desafios para conciliar suas atividades durante as aulas remotas. Esse é o caso da estudante de Administração, Cristiane Demartini, que, mesmo após um ano de aulas remotas, continua enfrentando dificuldades para conciliar vida acadêmica, família e trabalho. Ela relata, ainda, não estar acostumada com a quantidade de atividades online e as diferentes plataformas de ensino escolhidas pelos professores. “Então, acaba confundindo um pouco e a gente fica perdido. Ainda assim, estamos perdidos, e é difícil concentrar. Acho que uma das maiores dificuldades hoje é se concentrar. Tenho três grupos de disciplina nas redes sociais, além do Google Meet, e-mail acadêmico e um ambiente virtual de aprendizagem da própria instituição”, comenta.

Para passar por este desafio sem maiores danos psicológicos, a psicóloga Ana Paula recomenda, além do diálogo, o estabelecimento de uma rotina para cada compromisso diário.

Assista à fala da psicóloga:


A especialista ressalta, ainda, que a saúde mental nesse momento pandêmico é fundamental e que deve-se sempre buscar ajuda psicológica quando houver algum sofrimento ou desconforto.


Podcast: Universitários empreendedores

De acordo com pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de 2020, 58% dos empreendedores tiveram que suspender suas vendas e outros 31% mudaram a forma de funcionamento, o que indica que o cenário de início da pandemia não foi o mais propício para investir em um negócio. Contudo, há muitos estudantes que tiveram sucesso em seu empreendimento, apesar da pandemia do Coronavírus.


Acompanhe mais sobre esse assunto no programa JU, o podcast do Jornal Universitário.


Podcast do Jornal Universitário.


Relação de carteiras assinadas no Brasil durante a pandemia

Segundo dados do Ministério da Economia e Consórcio de veículos de imprensa, os números de carteira assinada no Brasil durante a pandemia são inversamente proporcionais aos números de casos


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