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A imposição de uma escolha: como a necessidade de uma decisão marca a vida de universitários

Updated: May 6, 2021

Incompatibilidade, insatisfação e o medo de arriscar levam universitários a mudar de graduação


Por Julianny Cardoso, Maria Eduarda Fleck, Mariana Diel e Tuãne Araújo


Qual profissão escolher? Esse é um dos maiores questionamentos enfrentados por estudantes. Numa era em que o autoconhecimento é muito pautado, esse tema não poderia ficar de fora. Afinal, o que escolher? Estou na profissão certa? Seja logo ao sair do ensino médio, ou ao optar por uma segunda graduação, os fatores decisivos abordam pontos como: aptidão, paixão, salário, perspectiva de carreira, mercado de trabalho, pressão externa, entre outros fatores. As vastas opções profissionais também são obstáculos na hora de escolher, pois estão aliadas à indecisão quando há mais de uma área de interesse, ou pela indeterminação de interesse.


Infográfico: Julianny Cardoso

A equipe do Jornal Universitário realizou uma pesquisa no site da rede social Facebook com estudantes de todo o país, entre os dias 2 e 5 de abril de 2021. Estudantes foram questionados sobre os motivos que os fizeram mudar de curso. Ao todo, 600 respostas foram registradas, de estudantes universitários de todo o Brasil, tanto de universidades públicas quanto privadas. O infográfico a seguir aponta os resultados obtidos:


Dentre os respondentes, um total de 86,8% informaram que pretendem se formar ou já se formaram no segundo curso e 13,2% não estão satisfeitos com o segundo curso e consideram uma terceira opção. Conforme a psicóloga e orientadora profissional, Fabiana Ferreira, é importante se informar sobre as profissões e carreiras, conversar com profissionais formados, escolher com calma a profissão e investir em autoconhecimento, estabelecendo bem suas áreas de interesse, profissionais e pessoais. No âmbito familiar, a psicóloga afirma que os responsáveis devem orientar seus filhos, mantendo-se imparciais. “Procure ajudar seu filho a identificar suas aptidões e a desenvolver o autoconhecimento. Procure não colocar suas expectativas de sucesso em cima dele. Ajude o jovem a buscar informações no mercado sobre a profissão que escolheu. A questão financeira é importante, mas é preciso levar em conta também outros fatores, especialmente a satisfação e realização profissional do seu filho. Ajude o jovem a buscar informações no mercado sobre a profissão que escolheu. Dê orientações e estimule visitas às faculdades e contatos com profissionais da área. Entretanto, fique atento, para não fazer essa tarefa por ele”.


As mudanças na vida acadêmica
A estudante de fisioterapia Thais Braz. Foto: Acervo pessoal.

A estudante Thais Braz recebeu o apoio da mãe para interromper o curso de Jornalismo na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), que escolheu por ser comunicativa e por não ter alcançado nota para entrar em Medicina. Apesar de ter gostado de Jornalismo, não se via atuando profissionalmente em comunicação. Para ela, a motivação era a área da saúde, na qual realmente se via, então trocou de curso. “Meu objetivo sempre foi, digamos que, salvar vidas, ou ajudar. Diminuir a dor das pessoas. Era o meu ideal. Eu me via (fazendo)”, conta Thais, hoje estudante de Fisioterapia do Centro Universitário da Região da Campanha (Urcamp).






Brenda Takahashi em uma palestra sobre feminismo, quando cursava Direito na UEMG. Foto: Acervo pessoal.

A estudante de Direito da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Brenda Hikary Takahashi, experienciou mudança de curso e de universidade. Apesar de querer ser atriz, Brenda conta que sempre soube que não daria certo. Ainda que o pai tenha sido músico, ele não queria o mesmo para a filha. Ela relata não ter tido apoio da família nesse quesito. Com isso, Brenda passou pelo curso de Relações Internacionais por um ano e meio. Após iniciar um estágio, decidiu trocar de área e optou cursar Engenharia, porém não gostou. Também frequentou a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e, agora, está no último ano do curso de Direito, na Universidade Federal do Norte do Paraná. Ela afirma: “não tenho vontade de fazer outra coisa, porque eu gosto muito do Direito”. A partir dessas experiências, Brenda completa: “a gente tem que, no nosso tempo, aproveitar as oportunidades”.

A realização de um sonho acadêmico

Atualmente, Thais relata estar feliz com o curso que escolheu. Assim como ela, a maioria dos entrevistados relatam que pretendem se formar no segundo curso. Mudanças fazem parte da vida, e com elas restam experiências e aprendizados. Para ela, todas as experiências são válidas. “Porque até mesmo no curso de Fisioterapia eu tive uma cadeira onde eu tive que fazer uma entrevista com os pacientes de fisioterapia”, completa, relembrando o semestre que cursou Jornalismo. Assim como ela, Brenda também ressalta a experiência da troca como positiva: “eu acho que foi a coisa mais incrível da minha vida poder passar por cursos diferentes e por cidades diferentes. Aprendi a valorizar mais o lugar que eu vivo, porque sinto que as coisas são diferentes. As pessoas que eu conheci. Quando você conhece mais pessoas, está mais aberto à diferença. Incrível oportunidade de ter tido isso. Então, eu sou muito grata”, alega.


A estudante de jornalismo Renata Marques. Foto: Acervo Pessoal.

A segunda graduação foi a escolha de Renata Marques, 40. Formada em Direito pelo Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo (CNEC), antigo IESA, e após atuar na área por cinco anos, iniciou a graduação de Jornalismo na Universidade Federal do Pampa. A estudante diz sempre ter ligação com a área da comunicação e que, aos 17 anos, pensava em fazer Jornalismo. Ao ver a oportunidade de cursar Jornalismo, entrou no curso, em 2019. A segunda graduação é uma realização pessoal, que supriu as expectativas. A diferença entre a faculdade privada de Direito e a universidade federal também é notada: “É bem diferente. Direito é um curso tradicional. A Unipampa tem aquele contato direto com os alunos. Isso é muito importante, coisa que na minha primeira graduação eu não vi, era tudo muito distante. O que eu gosto da universidade federal é essa troca, muito válida”, diz Renata.


As críticas são esperadas e, no caso de Renata, não foi diferente. “Minha filha que dizia que eu tinha que ganhar dinheiro agora, não fazer outro curso. Do meu marido que queria que eu fizesse agronomia. Mas eu mesma me incentivava, sempre quis fazer, não deixei me abater pelos comentários pejorativos”. Mas, atualmente, os comentários são positivos e incentivadores. “Hoje, todos me respeitam, perguntam do curso, perguntam porque não me veem assistindo muita aula. Estou fazendo só duas cadeiras. Hoje em dia, tudo tranquilo, minhas enteadas perguntam em qual jornal vou trabalhar, se vou trabalhar no Jornal Nacional”.


As experiências da primeira graduação e da segunda também são notadas na idade, o que demonstra que há cobrança desde cedo. “Na primeira graduação, eu era muito jovem. A gente, às vezes, não aproveita tudo do curso. Tu estás numa idade que está se descobrindo. Tem muita cobrança. Já na segunda graduação, eu percebo que eu interajo mais com os professores. Não só pelo conteúdo, mas pela experiência de vida mesmo. Isso é muito bom, gratificante, essa troca é uma experiência muito boa”, completa.

Os fatores

Assim como foi com Renata, há uma responsabilidade imposta pela sociedade em escolher um curso ainda jovem. “Ao sair da escola, chegam muitos pensamentos e inseguranças à nossa cabeça, porque inicia uma nova fase, que traz consigo responsabilidades e decisões”, afirma a psicóloga de carreira. A indecisão pode estar ligada à preocupação financeira. “Naturalmente, o salário que se pode ganhar em uma profissão é um dos quesitos que temos que pensar. O problema, porém, é quando este é o único fato. Se fazemos algo com paixão, se temos real interesse, acabamos nos tornando especialistas. Quando nos tornamos especialistas em algo, nos destacamos dos demais e, com isso, temos a chance de receber mais dinheiro”, assegura a psicóloga, Fabiana Ferreira.

Psicóloga de carreira, Fabiana Ferreira. Foto: Acervo pessoal.

Quais seriam os motivos para essas mudanças de curso? Fabiana explica que, “muitas vezes, as profissões representam idealizações de pessoas que conhecemos, ou compensações e reparações que influenciam a escolha, muitas vezes sem estarmos conscientes disso. Assim, é fundamental estar atento ao grande número de fatores que estão influenciando a escolha profissional. É muito comum focalizar a atenção na opção do curso a ser seguido, geralmente usando como referência as matérias escolares que temos mais facilidade e que mais gostamos. É claro que a análise dos interesses escolares é importante, mas é apenas um dos fatores a serem considerados. Não estamos apenas pensando no que vamos estudar e no que vamos fazer, mas também em quem vamos ser, o que envolve nossos sonhos, ideais e valores”.


Apesar dos testes vocacionais serem bons indicadores, não devem ser vistos como um ponto decisivo. Fabiana Ferreira afirma que “nenhum teste vocacional conta com uma bola de cristal que vai te dizer exatamente que área profissional vai te fazer feliz. Ele só vai dar uma orientação levando em consideração o seu perfil profissional e pessoal”. Além disso, o aconselhamento de uma psicóloga de carreira tem o objetivo de ajudar nesse processo: “É possível ainda fazer um teste com um psicólogo, que acaba sendo bem mais completo. Esse segundo tipo de teste pode ser aplicado apenas por um profissional da área, já que é resultado de pesquisas e avaliações regulamentadas pelo Conselho Federal de Psicologia. Se o seu filho estiver com muita dificuldade para efetuar a escolha da carreira, proporcione a ele uma orientação profissional. Com um bom método, o especialista possibilitará um maior autoconhecimento e facilitará a livre decisão do seu filho”.


A percepção de quais são as prioridades também ajuda nessa escolha. As respostas a todas as perguntas que flutuam nesse processo devem surgir dos próprios estudantes, avaliando todos os pontos positivos e negativos, otimizando uma escolha correta. Ainda mais importante é distinguir decisões próprias de decisões impostas por um padrão de vida alheio. Reforçando isso, Fabiana afirma que, “na hora de escolher uma profissão, nunca se deixe levar por comentários, ou qualquer tipo de influência. A carreira é sua, o sonho é seu, a escolha da profissão certa só cabe a você”.


Experiências

Em uma série de depoimentos, as universitárias Thais Braz, Renata Marques e Brenda Hikary Takahashi falam um pouco sobre a experiência de troca de graduação.







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