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A moda através da comunidade LGBTQ+

Updated: May 6, 2021

Um poder cultural e de libertação pessoal


Gabriel Maia, Laura Dullius,

Marina Roberta e Renata Carvalho.


A comunidade LGBTQ+ e a moda

O mundo da moda, muitas vezes, está ligado ao consumo e à estética. É o que afirma a psicóloga da ong Girassol Lara Barbosa. “ A moda é um ato político sim, mas também é um dos suportes para a saúde mental”, diz a psicóloga Lara Barbosa. A profissional ainda acrescenta que, apesar de muitas vezes a moda estar ligada ao consumo, também é uma forma de expressar sentimentos e identificação com outras pessoas, “o que é muito importante para a saúde mental deste grupo social”. É dessa forma que ela funciona para o público LGBTQ+, sendo possível para esses públicos manifestarem quem são, da forma que mais se identificam. O Brasil é um país violento para os LGBTQs, segundo o movimento Grupo Gay da Bahia (GGB) e a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). número de atos de violência contra LGBTs diminuiu de 2019 para 2020, mas, infelizmente, o Brasil ainda lidera o ranking mundial de violência LGBTQfobica, sendo atualmente o primeiro país da lista com mais assassinatos de transexuais e travestis.

Para Maria Luisa Gelatti, mulher trans São Borja, ativista LGBTQ+ e drag queen, a moda é um estado de espírito e está ligada à comunidade, mais como uma forma de se comunicar com os outros grupos sociais, como forma de empoderamento e protesto. Segundo ela, a moda não é apenas o que vestimos, mas o que transmitimos. A comunidade, em si, tem influência para a moda com o início da cultura Queer e dos Balls (bailes clandestinos para drag queens e performers nas décadas de 1970, 1980 e 1990, nos Estados Unidos, principalmente). Estas têm como características o uso da extravagância e empoderamento do corpo.

Maria afirma, ainda, que a comunidade começou a ter reconhecimento, de certa forma, partindo da divulgação da música “Vogue”, da cantora Madonna, que é sobre uma dança derivada totalmente dos balls. Após essa divulgação, de uma mulher hetero-cis (pessoa que se identifica com seu genero de nascimento) e muito influente na cultura pop. “Os grandes estilistas, que também eram e são, em sua maioria, LGBTQs, começam a trazer essa curiosidade do mundo escondido dos gays às passarelas”, diz ela.

O dia 16 de julho, dia internacional da arte drag queen, é tão importante, para Maria Luísa quanto os dias do orgulho trans e LGBTQ+ (29 de janeiro e 28 de junho). “A arte drag é uma forma de expressão artística e política e não pode ser vista apenas ao travesti ou trans, porque é através dela que expresso o momento em que estou, seja ele triste ou feliz”. Também, ela menciona a importância e evolução que esta arte fez em sua vida, as inspirações e referências que ela tem através da mesma. Com a grande repercussão que o drag vem ganhando, através do reality show americano “Rupaul 's Drag Race”, Maria menciona os diversos talentos drags existentes na cidade de São Borja e ainda acrescenta

"A arte é importante, e ela faz parte da vida de todos, por ser um ato político".


É através desses momentos que a moda tem ficado cada vez mais inclusiva para a comunidade e outros grupos sociais. Maria Luísa se considera muito ligada à moda. “Tem dias que não ligo para a minha vestimenta, mas, em outros dias, eu amo me vestir bem, pois a moda é o meu estado de espírito. E essas manifestações, inclusive, acabam entrando no meu dia a dia, através não só da internet, mas sim sobre o audiovisual (filmes, séries e programas de tv)”.






imagem de Maria Luísa (por Gabriel Maia)

A moda na sociedade


O sociólogo e professor da Rede pública do Estado do Maranhão e da Plataforma Gonçalves Dias, Rafael Carlos Alves, entende que “a moda é coercitiva, é externa ao indivíduo e, ao mesmo tempo, dá a esse indivíduo a possibilidade de se conectar a outras pessoas que também sentem o mesmo”. A comunidade LGBTQ+ tem como característica, desde a sua formação, na década de 1970, seu posicionamento através da moda e da reivindicação de seus direitos, como parte da sua identidade coletiva, afirma o professor. Para ele, ainda é possível compreender, na moda em geral, esse processo, pois serve como uma forte manifestação artística. “Quando se fala em moda, a primeira coisa que pensamos são os grupos sociais, pois o padrão de vestimenta e de conduta, fazem parte da identidade destes”, afirma Alves. Ele acrescenta que a moda está diretamente ligada ao comportamento social.

Ainda para o sociólogo, os conteúdos midiáticos mudaram bastante a maneira como consumimos e percebemos a moda. Ele entende que essa realidade social permite distinguir a moda das passarelas e ganha os palcos e as tendências mundo afora. Com isso, gera discussões sobre identidade de gênero e sexualidade.

Ao falar dessas representatividades, ele afirma que "a dor do outro tem que ser respeitada, tem que ser ouvida, mas nem sempre ela é plenamente compreendida". Existe, assim, a necessidade de se articular para lidar contra o preconceito, contra a homofobia, de lutar pelas pautas e demandas. Ele ainda observa que diferentes pessoas e públicos pensam, agem e entendem o mundo de suas próprias maneiras.

A moda LGBTQ+, para Alves, além de ser comportamento, posicionamento e estilo, é inclusive algo atrativo para o mercado. Pois os consumidores passam a consumir também marcas, produtos e roupas que coincidem, ideologicamente, com suas perspectivas e anseios. Com isso, para ele, a crescente evolução e constante representação de estilistas e marcas com questões sociais, se dá ao apoio da comunidade LGBTQ+.

Diante disso, as tendências e novidades são influenciadas e desenvolvidas tendo como foco o movimento” Conclui Rafael.

“- A moda é um dos suporte para a saúde mental”

Muitas coisas mudaram com a pandemia de Covid19. Hoje, usamos uma roupa qualquer, ou, até mesmo, só o pijama para ficar em casa, por ser mais confortável. Como diz a psicóloga Lara Barbosa, a moda é mais do que só uma roupa, um batom ou um estilo de vida, ela é a sua identidade. “Porque a moda é um ato político sim, mas, também, a moda é um dos suportes para a saúde mental. você deve usar uma roupa para se sentir bem contigo mesmo”.


“Porque a moda é um ato político sim, mas também a moda é um dos suportes para a saúde mental”.

Outra coisa que Lara salienta é a importância da internet, tanto para o descobrimento de personalidade de cada um, como na busca por encontrar o grupo social de identificação de cada um. Um dos exemplos citados por ela, que acompanhou durante a pandemia, é a rede social Tik Tok. Para ela, a mídia social “é um ótimo laboratório, pois ali conseguimos nos manter atualizados com as novidades da juventude e até mesmo da moda. É também uma bela ferramenta de distração”. Para ela, a internet não pode ser considerada algo negativo. Por mais que Influencie, ela também ajuda “a encontrar a nossa aceitação, ou melhor, evolução, no momento em que você souber o que é e se respeitar, não de uma forma moral, mas sim de não ultrapassar os seus limites para agradar os outros”.

Lara atua como psicóloga voluntária na ONG Girassol, em São Borja. É mãe e bissexual. Sua história com a moda e essa evolução, que ela prefere invés do termo aceitação, foi muito conturbada por ser uma mulher gorda, desde a infância e, também, por ter pais rígidos, que decidiam o que era apropriado para ela usar enquanto uma pessoa com estes padrões estéticos. “Mesmo assim, eu tentava me empoderar, usar uma roupa que me deixava de bem comigo mesmo”. Ela sabe que esse é um sofrimento que toda mulher encontra. “Se submeter a situações de aprovação e tentar não ser desmerecida pela roupa que está vestindo”.

A psicóloga também revela que, por sua família ser muito tradicional, e por já haver casos de agressões de parentes LGBTs pelos próprios familiares, se aprofundou em assuntos sociais e políticos, ainda na faculdade. Lara dá algumas dicas de introspecção, uma reflexão para cada um fazer e se reconhecer. acompanhe no áudio a seguir.



Por que escolhi moda?

Uma coisa é certa, quando falamos de moda, o primeiro pensamento é como ela irá nos impactar e mudar o que já somos. E assim foi para o estudante César Augusto Dresch Schneider, de 20 anos, que escolheu cursar moda, “por ela sempre inovar''.

Com o movimento LGBTQ ganhando cada vez mais espaço no cinema, televisão e na arte como um todo, não demorou muito para também começar a apoderar-se do mundo fashion, ganhando cada vez mais visibilidade e apoio de diversas marcas e estilistas reconhecidos, conta o discente de Moda, na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Campus de Balneário Camboriú.

Schneider, até o momento, está no seu primeiro ano do curso . Ele pensa no seu futuro como estilista, ou designer de jogos, por ter uma grande criatividade e desejo de trabalhar com ambas. Para o estudante, algumas vezes, a moda do homem hétero acaba seguindo o mesmo padrão de sempre. "Eu acho a moda masculina, principalmente, heteronormativa, muito sem graça, sem inovação e parada demais”.

Já o público LGBTQ+ tem um padrão através do qual as passarelas trazem suas peças, mostrando suas manifestações sociais e culturais, ajudando diversas outras pessoas que tinham medo ou receio de se libertar.

“Mesmo com toda essa expressividade no mundo em geral, ainda é bem complicado para algumas pessoas transexuais, não binários ou pessoas com estilo andrógino no mercado de trabalho”, conta Schneider.

César espera que quando chegar sua vez no mercado de trabalho, as coisas estejam um pouco diferentes, e que ele possa ser um estilista de sucesso e feliz na profissão.


Sim, a moda me fez independente


A moda se mostra como um fator de libertação para pessoas LGBTs, no momento em que ela modifica o pensamento de existência de cada ser”. Essa é a opinião de Murilo Arruda, graduado em Tecnologia Têxtil (FATEC) e pós-graduado em Negócios de Moda (Anhembi Morumbi). Ele acredita que a moda é algo que dá razão à vida, por ser uma área complexa e interdisciplinar. Está relacionada com a arte, com a ciência e até mesmo com a economia. Além do mais, para ele, a moda traz sentido à vida, pois tudo aquilo que vestimos caracteriza parte do que somos ou do que queremos ser.

Ao começar no ramo da moda, o sonho de Murilo era ser um estilista, ou lançar uma marca e empresa de sucesso. Ele mudou algumas perspectivas por ver que a área tem outras oportunidades, não muito longe dessa realidade. Murilo, hoje, é dono do próprio negócio. Tem uma loja de moda sustentável, que é o famoso brechó. A missão da loja é mostrar para as pessoas a importância de começar a mudar seus hábitos de consumo com alternativas sustentáveis. “O brechó está crescendo a todo vapor”, diz.

A moda na vida de Murilo, além de ser uma paixão, se mostra como principal e única fonte de renda. Assim, modificou sua vida, fazendo-o independente ainda na juventude. E apesar de ser LGBTQ+, diz que preconceito no ramo, em relação à sua sexualidade, nunca foi uma realidade. "Eu nunca sofri nada do tipo por ser LGBT, me sinto privilegiado nesse sentido, porém trabalhar com moda requer muito jogo de cintura, pois, dependendo da carreira, a pessoa pode ter que lidar com o ego de outras pessoas e isso sim pode vir acompanhado de repressão”.

Murilo ainda não é dono de uma grande empresa, mas está no caminho. Mesmo assim, como muitos empresários e donos do próprio negócio, durante a pandemia, teve que se reinventar no atendimento aos clientes, focando ainda mais na divulgação e nas vendas on-line. Lançou, a partir daí, um sistema de entregas drive-thru.

Imagem de Murilo Arruda na sua loja (por Marcelo Rocha)




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